What About Bob? (Frank Oz, 1991)

I feel good, I feel great, I feel wonderful… I feel good, I feel great, I feel wonderful… I feel good, I feel great, I feel wonderful… – Bob Wiley

O Frank Oz merece um lugar no céu. Não que eu acredite no céu – no mínimo dos mínimos tenho sérias dúvidas de que exista –, só acho que ele o merece. E nem é por ter realizado um ou outro filme decente. É que ele puxava cordelinhos de alguns dos Marretas, fazia as vozes deles, e ainda por cima foi a voz do Yoda. O que mais se pode pedir de alguém? Realização de filmes com relativa piada? O Frank Oz também tem isso no curriculum, e será recordado por gerações e gerações de pessoas que gostem de rir ou que gostem apenas de incredibilidade em geral.

Em certos filmes, há várias razões que me fazem perdoar uma piada banal, preguiçosa ou que repita outras piadas que estou farto de ouvir. Pode trazer um bocadinho de novidade, de vida, pode servir especialmente bem a história, pode vir associada a uma personagem que diria mesmo esse tipo de piada, pode adicionar à doçura do filme e fazer-me guardar um espaço ainda maior no coração para ele…ou isso ou sou eu a tentar justificar o injustificável. Há um filme do ano 2000 chamado Saving Grace que eu vi no Quarteto com amigos e gostei. Já tinha ouvido aquelas piadas antes, mas não consegui resistir à história da viúva de meia idade que se vê obrigada a começar a vender droga para pagar as dívidas do falecido marido. Não fazia ideia de quem era o Craig Ferguson, que escreveu o filme, na altura, e achei piada àquele jardineiro. Hoje em dia, claro, sei que é provavelmente o apresentador de talk shows mais inovador que existe por aí e que tem mesmo muita piada. Talvez isso desculpe as piadas serem preguiçosas, talvez não. Sei que o Death at a Funeral, realizado pelo Frank Oz, tem muitas das mesmas piadas que esse filme. Porém, não me fez rir uma única vez. Se calhar em sete anos transformei-me num snob, ou se calhar as piadas não vinham associadas a uma história ou a personagens que me dissessem o que quer que fosse (a não ser, claro, ao Peter Dinklage, um deleite em qualquer filme em que apareça).

Meio Portugal – e especialmente o Portugal intelectual – parece estar a adorar o Whatever Works, o filme do Woody Allen com o Larry David. As melhores piadas desse filme estão no trailer, há imensas piadas recicladas e preguiçosas e há um claro subaproveitamento de toda a gente envolvida. É triste, porque a filosofia subjacente é louvável e interessante. Com trabalho, chegar-se-ia a um clássico. Sem trabalho, só não é o pior filme do Woody Allen porque infelizmente ainda não esqueci o Small Time Crooks.

Por razões diferentes, o Death at a Funeral e o Whatever Works apelam ao mesmo tipo de público: gente que gosta de rir de dois em dois anos, no máximo, e parece que nunca ouviu aquelas piadas antes. No Death at a Funeral as piadas não estão associadas a personalidades fortes, marcadas, que elevem o filme da mediocridade. No Whatever Works as piadas são fracas, a história é fraca, e, por muito boas que sejam as pessoas envolvidas, não são o Bill Murray, por isso não há mesmo nada a fazer. O Frank Oz é muito assim, e a maior parte dos filmes dele vale o que vale por ser com quem é.

O que me leva a este What About Bob?. Não há nada aqui que não tenha sido feito melhor por outras pessoas. Mas o Bill Murray e o Richard Dreyfus funcionam tão bem juntos que se desculpa. Não funcionaria com outros quaisquer, disso não há dúvidas. O Dreyfus é um psiquiatra de sucesso, o Murray é o paciente que não o larga e o leva à loucura. A personagem do mestre é um bocado a mesma que ele faz no The Man Who Knew Too Little, ainda aí pela vida totalmente desastrado sem querer fazer mal a ninguém, sem saber muito bem o que se passa e a fazer-nos rir. Podia ser muito pior.

É banal, há mil histórias iguais. Uma que me vem à cabeça é a do Planes, Trains and Automobiles, um filme do John Hughes com o Steve Martin e o John Candy feito quatro anos antes deste do Frank Oz. Nesse filme, o tipo normal que só quer viver a vida tranquilamente e o chato que, qual lapa, não descola, ficam amigos. Talvez isso mostre o quão grande era o coração do John Hughes. Por sua vez, o What About Bob? acaba com tentativas de homicídio e um doente mental a levar um psiquiatra à loucura. Ou seja, o Frank Oz não tem coração, mas dá uma nova vida à mesma fórmula de sempre.

Estava a brincar. Tudo isto tem a ver com o facto de o Frank Oz ser um homem do humor físico que não liga assim tanto às piadas com palavras que sabe retirar o melhor dos actores (Steve Martin, Eddie Murphy, Bill Murray, etc.) no que toca a isso. A sério: duvido que, em termos físicos, haja melhores interpretações cómicas desta gente em filmes que não sejam do Frank Oz. Deve ter algo a ver com a relação dele com as marionetas ou o caraças.

O que não quer dizer que esta seja uma grande comédia. Não é. É porreiro, vê-se, o Frank Oz tem melhor e pior. Mas vale sobretudo por dois momentos impagáveis que estão lá em cima no panteão dos melhores momentos de sempre (que eu, aliás, acabei de inventar). O segredo, como sempre, está na cara do Bill Murray. Nas expressões que faz enquanto toma banho ao ar livre, com a t-shirt dele a dizer “DON’T HASSLE ME, I’M A LOCAL” e na maneira como canta, depois, com a família toda do Richard Dreyfus, o “Singing in the Rain” enquanto estão todos a lavar a loiça. São daqueles momentos em que não interessa quanta piada têm, são apenas coisas que fazem a vida valer a pena. Apenas. Como se isso fosse pouco.

Consta que se deram mal durante a rodagem. Ainda bem.

Eu e o mestre: The Life Aquatic with Steve Zissou (Wes Anderson, 2004)

Well, I was a little upset at first. I mean, obviously people are going to think I’m a showboat, and a little bit of a prick. But then I thought… that’s me. I said those things, I did those things. I can live with that. You’re a good writer, Jane. – Steve Zissou

Em 1998, o Wes Anderson descobriu que ter o Bill Murray a encarar a câmara com um ar meio aborrecido, meio triste sempre que aparecia dava origem a filmes óptimos. O mundo mudou aí. Não foi o primeiro a tentá-lo, mas foi o primeiro a usá-lo assim no contexto de filmes indie. Adoro virtualmente todos esses filmes do fundo do coração, mas isso não deixa de ser verdade: nos filmes que protagonizou desde o papel secundário no Rushmore, é essencialmente esse o método do Bill Murray. Duas horas de um misto de aborrecimento, tristeza e comédia. Funciona porque basicamente a vida também é isso.

Tenho uma espécie de tradição. Sempre que sai um filme novo do Wes Anderson vou vê-lo duas vezes ao cinema, geralmente na mesma semana em que se estreia. Doença? Não. Apenas hábito. Infelizmente quebrado este ano. Obrigado, senhores que agendam estreias em Portugal. Obrigado por não estrearem cá o Fantastic Mr. Fox. O filme será na mesma tratado aqui aquando da edição em Blu-Ray no Reino Unido, daqui a menos de um mês, por isso não há grande problema, mas é feio quebrar tradições. Mas foi exactamente isso que aconteceu com o Life Aquatic with Steve Zissou. Vi-o uma vez e depois fui revê-lo e já perdi a conta às vezes a que voltei a ele em DVD. Mas pronto, adiante, é um filme belíssimo, com imagens estupidamente brilhantes, e tem o mestre como actor principal, ainda por cima de barba. Não é preciso dizer mais nada (a não ser atirar para o ar alguns nomes como Anjelica Huston, Jeff Goldblum, Willem Dafoe, ou Bud Cort – o Harold do Harold & Maude).

O Wes Anderson tem um dom magnífico: dar-me piadas que não têm piada e não me fazer ficar chateado por isso. Por causa dos detalhes, das histórias, das personagens, do guarda-roupa, dos cenários, dos actores, das imagens, dos planos (e este filme tem alguns dos melhores da carreira dele) e disso tudo. E dos zooms óbvios para salientar algo. Há dois grandes exemplos de piadas sem piada aqui, e ambos envolvem a personagem do Owen Wilson. A dada altura o Steve Zissou (a personagem do Bill Murray, obviamente) diz que ele devia mudar de nome e ele não percebe que é o apelido, pensa que é o primeiro nome. Depois o Owen Wilson confunde o som de um barco ou lá o que é com o som de animais marinhos. Talvez sirva para mostrar a simplicidade da personagem, a pouca sofisticação, mas não deixam de ser más piadas que eu não perdoaria a mais ninguém. Ou então para exemplificar que, apesar de ser um auteur sério, com todas as influências europeias e orientais que um realizador sério deve ter para agradar a uma certa elite, gosta de piadas parvas tal como todos nós gostamos. Mais uma vez: a vida não deve ser levada assim tão a sério.

Os filmes do Wes Anderson são vendidos como comédias, e fazem rir, mas não é por isso que os vejo. Lembro-me perfeitamente da segunda vez que vi o filme no cinema. À saída, uma tipa qualquer que andou na escola comigo e com quem me acompanhou comentou que o filme era “para cortar os pulsos” e “aborrecido”. Se todos os filmes para cortar os pulsos fossem assim, o mundo seria um sítio bem melhor. Há tristeza, sim. Pessoas morrem e fazem outras chorar. Mas há redenção e esperança. Um tipo acabado percebe que nunca foi grande espingarda. Não muda muito, mas ao menos percebe isso (nunca tinha reparado, e se calhar imaginei, mas no início do filme, antes de ele tomar realmente consciência de que já não é nada – até lá tinha estado apático, não que haja muita diferença nos dois estados –, ou que nunca foi, a câmara é segurada à mão e treme ligeiramente, depois está mais fixa). Haverá final mais feliz que esse?

Tem tudo isso e depois tem acção, porra, tem acção. É acção coreografada e filmada à Wes Anderson, a mostrar-nos minuciosamente os cenários, a passar de sala em sala, algo que faz incrivelmente bem. E todos os animais, peixinhos e afins são animados, totalmente irreais, de maneira deliciosa. O Will Oldham diz que o Wes Anderson tem uma abordagem cancerígena à música, mas isso é mentira. Além de o Waris Ahluwalia, que aparece no filme, ter uma barba bem melhor que a do Will Oldham, o Wes Anderson é exímio em escolher a banda sonora certa para as cenas certas. Quando vi o filme pela primeira vez, no dia da estreia, não queria saber dos Sigur Rós para aí há quatro anos – ainda hoje não quero saber –, mas o clímax ao som deles fez-me chorar ou algo do género. Se calhar fiquei só ligeiramente bastante emocionado, mas não interessa. As canções do David Bowie pelo Seu Jorge são maravilhosas, e ficam muito bem quando o Wes Anderson nos está a mostrar o barco, são sempre um pormenor, um elo de ligação quando se passa de compartimento em compartimento, e geralmente há, antes ou depois de elas acabarem, algo importante a passar-se (por falar nisso, a atenção a detalhe dele – do Anderson – nunca deixa de me impressionar: há sempre algo lá atrás a passar-se).

Já o disse mil vezes. Não deixa de ser verdade e aqui faz muito sentido: basicamente, nenhum de nós sabe muito bem o que anda aqui a fazer. Andamos todos a improvisar e não percebemos nada do assunto. O Steve Zissou e os seus comparsas são assim. Há uma cena no princípio em que a praia está cheia de animais luminosos. Ele inventa uma explicação qualquer e parece verdade. Depois não é. Porque é sempre assim. Estamos todos aqui a inventar. Todos, sem excepção. Por isso é que, por muito detestável que a personagem seja, podemos identificar-nos. E, além disso, ninguém consegue odiar mesmo uma personagem do Bill Murray. Faz parte da magia dele. E da natureza humana.

Morram, adeptos da Team Edward e da Team Jacob, Team Zissou para sempre.

Eu e o mestre: Groundhog Day (Harold Ramis, 1993)

You want a prediction about the weather, you’re asking the wrong Phil. I’ll give you a winter prediction: It’s gonna be cold, it’s gonna be grey, and it’s gonna last you for the rest of your life. – Phil Connors

O mundo é feito de idiotas. As pessoas normais são idiotas e nós é que sabemos tudo. Nós é que não somos idiotas, porque somos melhores que o resto. Certo? Talvez. É fácil sentirmo-nos superiores àqueles que sabem menos, que conhecem menos e que não partilham a nossa visão do que a vida deve ser. Eu sei, porque é basicamente isso que faço todos os dias. Vejo alguém com gel no cabelo e patilha à mitra e rio-me, para dentro ou para fora, dependendo do quanto o tipo me assusta e das probabilidades de me vir a bater. Ou um puto que gosta demasiado de fidget house e não tem medo de mostrá-lo. O que esta atitude não tem em conta é que essas pessoas são provavelmente muito mais felizes ou satisfeitas do que eu alguma vez serei – e é preciso sublinhar que até sou um tipo contente e bem ajustado.

Naquele que é provavelmente o melhor filme de sempre dele, o Bill Murray faz de Phil Connors, o tipo cínico da meteorologia de um canal de Pittsburgh que fica preso no mesmo dia, o dia 2 de Fevereiro. É o Groundhog Day, o dia em que uma marmota sai da toca e vê ou não vê a sombra. Dependendo disso, os americanos têm ou não têm mais seis semanas de Inverno – este ano viu, e há mais seis semanas. Volto a este filme vezes e vezes sem conta, sempre que me apetece, mas acho que esta foi a primeira vez que o vi no próprio dia. Desde pequeno que ideia do filme, passei a anos a querer revê-lo, e não paro de adorá-lo. Cada momento, cada cena, a progressão narrativa, os suicídios dele, o Stephen Tobolowsky a fazer de Ned Ryerson – e foi do diálogo dele no fim que veio o nome dos Dismemberment Plan –, os engates dele – é com pormenores sobre a vida das mulheres que se engata? –, o Brian Doyle-Murray a engasgar-se, o Chris Elliott, as lições de piano, enfim, até tenho um lugar especial no coração para a inexplicável Andie MacDowell. É o dia perfeito, que nos ensina que todos os dias, por mais maus que sejam, até podem ser dias perfeitos se olharmos para o que está à nossa volta e tretas do género. E é notável que o filme consiga fazer isso sendo ao mesmo tempo um dos filmes mais incrivelmente hilariantes que já vi na vida, sem nunca ser foleiro.

Em entrevistas dos anos 90, o Bill Murray diz que, na vida, só lhe passaram pelas mãos dois guiões praticamente perfeitos – e é por isso que ele improvisa tantos diálogos. Um deles foi o deste filme (o outro foi o do Rushmore do Wes Anderson). Era perfeito, talvez, mas o Harold Ramis tornou-o universal. Há pouca gente que consiga fazer o que o Harold Ramis tenta sempre fazer e às vezes acerta. A ideia do Ramis é agradar ao maior número possível de pessoas. O que ele compreende – e que muita gente com os mesmos objectivos nem sequer vislumbra – é que não é preciso estupidificar para fazer isso. Segundo o Ramis – e é triste que, num perfil da New Yorker de 2004, se diga que ele e o Murray não se falavam há anos, fez-me chorar e espero que a situação esteja resolvida, até porque seria sacrilégio o Pete Venkman e o Egon Spengler não se juntarem no Ghostbusters 3 –, o guião original era mais pessimista e o tipo ficava preso no mesmo dia para sempre e começava in medias res e assim. Não é para toda a gente, mas ficou.

Há um bocadinho para todas as pessoas aqui, e não é à toa que todas as religiões do mundo garantam que aquilo reflecte os seus princípios (esta teoria, do melhor artigo de sempre, uma súmula da filosofia das personagens do Murray que saiu dia 2 no incomparável AV Club, também faz sentido). Eu, que sou, dependendo dos dias, ou ateu ou agnóstico, acho que reflecte os meus princípios e faz uma grande defesa do ateísmo. O Phil Connors passa por várias fases até aceitar que, basicamente, vai ficar preso naquele dia para sempre. E é aí que percebe: nada disto faz sentido, não há ninguém para julgar, não há consequências, por isso o melhor é que temos a fazer é viver o melhor possível e aproveitar ao máximo a situação em que estamos. Por mim, desde que a cientologia não veja nada que a legitime neste filme, todas as interpretações são bem-vindas.

Ele vai-se acostumando àquelas pessoas, à simplicidade da vida do campo. Elas riem e têm sonhos e desilusões como toda a gente, mas, como ele percebe, não são patéticos. Claro, é mais fixe ser irónico e mau e gozar com elas, como ele faz, e com muita piada, no início do filme. É como o que eu retive do que o David Foster Wallace disse num discurso (pode ser lido aqui, mas eu li em livro apenas porque é mais intelectual). Podemos odiar o nosso vizinho, ou o gajo que nos passou à frente na fila do supermercado (e, atenção, estou a parafrasear, há a hipótese de nada disto estar no texto) ou no trânsito. Mas aquela pessoa podia estar com pressa porque ia salvar alguém, ou passar os últimos momentos com alguém que já não tinha salvação, ou algo do género. É provável que não seja esse o caso, mas pode ser. E é essa hipótese que devemos considerar. Não que o Foster Wallace seja um exemplo a seguir – no discurso diz que aquilo serve para não dar um tiro nos cornos, e anos depois foi exactamente isso que ele fez –, mas aí tem razão.

Somos todos extremamente irónicos e olhamos para os outros e achamos que são idiotas e piores que nós. Tudo porque não concebemos a felicidade sem ser pelas coisas de que gostamos. O Groundhog Day é a transformação do Bill Murray num tipo que aprecia e compreende genuinamente a inocência dos divertimentos do povo, de pessoas que a princípio ele pensava que eram menos que ele, mas eram bem mais felizes. E, no fim, atinge a felicidade. Não há nada mais bonito que isso. Ainda bem que é só com ele, que está ali no filme e pronto. Eu, por mim, posso continuar aqui em cima do meu pedestal a julgar os outros. Porque gel para espetar o cabelo e patilhas à mitra, por muito feliz que possam fazer uma pessoa, continuam a ser aberrações.

Por mim, Bill, podia ser inverno o ano inteiro, desde que estivesses lá.

Eu e o mestre: Coffee and Cigarettes (Jim Jarmusch, 2003)

Doc, what could I do for this cough? – Bill Murray

Há certas certezas que temos que tornam a vida melhor. Basicamente, são factos nos quais temos plena fé e que nunca nos hão-de desiludir. Como a certeza de que o M. Night Shyamalan fará sempre péssimos filmes, ou de que o Marco Horácio nunca terá piada na vida. São crenças que nos aquecem à noite e nos fazem felizes. Eu sei que o Bill Murray será sempre uma óptima adição a qualquer filme. E também sei que o facto de membros do Wu-Tang Clan aparecerem num filme ou num sketch fará automaticamente com que a cena tenha piada (está provado cientificamente: dos sketches do Chappelle’s Show com e sobre o RZA e o GZA à cena cortada do Iron Man com o Ghostface, em que o Tony Stark conhece o Tony Starks, passando pelo RZA no Funny People, naquele bocadinho do Ghost Dog do Jarmusch em que ele aparece na rua e num vídeo para a net com o ?uestlove sobre o Parks and Recreation). Excepção para o Method Man no How High?, mas o Meth já fez tantas coisas boas no mundo que compensam esse crime: ter sido o Cheese Wagstaff no The Wire, a bizarria de aparecer no mais banal filmezinho indie de sempre, o Garden State, a ser incrível, o sotaque jamaicano de trazer por casa no The Wackness, etc. Coffee and Cigarettes junta essas duas crenças numa só: tem uma cena com o RZA, o GZA e o Bill Murray. Sou mais feliz por isso, muito mais feliz.

Tenho vindo a recorrer mais e mais ao café. Não fumo, obviamente, porque isso seria estúpido, mas gosto de café. Café é fixe, mantém-nos acordados mesmo quando dormimos pouco e dá-nos energia. Um dia teremos de pagar a conta, mas é assim com tudo na vida. Do conjunto das 11 curtas-metragens que compõem o Coffee and Cigarettes, duas destacam-se claramente do resto. São a do Bill Murray com o RZA e o GZA, naturalmente, e a do Alfred  Molina com o Steve Coogan. Também há outras muito boas, como a do Roberto Benigni com o Steven Wright, a do Tom Waits com a do Iggy Pop e a dos White Stripes. Mas essas destacam-se claramente.

Só uma delas é que, hoje em dia, não faz sentido nenhum, mas compreende-se. É a dos dois gémeos irmãos do Spike Lee que falam ao Steve Buscemi de como o Elvis Presley era racista. É uma crença errada que existe no seio da comunidade negra americana e que o mano Spike ajudou a propagar com o Do the Right Thing e o “Fight the Power” dos Public Enemy. Também não tem nenhum fundo de verdade. Compreende-se porque era 1989, o mesmo ano do filme e da canção. Salva-se por algumas piadas.

Quão gigante seria ser o RZA e o GZA e chegar a um café e estar a beber chá de ervas porque o Clan não se mete na cafeína e o empregado do café ser o Bill Murray? De um a dez, seria provavelmente mil. E, repara, és o RZA e o GZA, não precisas do Bill Murray para a tua vida ser incrível. Mas ele aparece e é. E reconhece-os, sabe que são do Wu-Tang Clan e o GZA é o Genius e o RZA é o Bobby Digital. Respeito. A parte deles junta muitos elementos das curtas anteriores. O RZA, tal como o Tom Waits, diz-se músico e médico, o GZA fala da cafeína para ter sonhos mais rápidos e de gelados de café, etc.

Anos depois, o Jim Jarmusch fez este filme outra vez. Mas transformou-o numa longa metragem, chamou-lhe Limits of Control, esqueceu-se da piada e fê-lo muito chato. Muito mais bonito do ponto de vista da imagem, mas extremamente aborrecido. Aqui há situações engraçadas, como o Roberto Benigni a trocar de lugar com o Steven Wright e depois a ir ao dentista em vez dele, ou a prima da Cate Blanchett a não poder fumar num sítio logo que a Cate Blanchett se vai embora. Também há segmentos mais parados, mas são bonitos e têm significados escondidos, além de não durarem duas horas e de o Bill Murray não morrer no fim. As celebridades gozam com elas próprias e a fama, e não me espantaria que isto tivesse influenciado o Ricky Gervais quando escreveu o Extras. Não é perfeito, mas tem momentos perfeitos, e não sei por que raio é que só agora é que o vi, tendo-o em DVD há anos e anos e sendo fã do Jarmusch e do Bill Murray e do RZA e do GZA e do Tom Waits e do Steven Wright e de basicamente quase toda a gente que aparece neste filme (pontos para a fotografia do Henry Silva na cena com os italo-americanos que também aparecem no Ghost Dog). Obrigado, promessa que fiz no início do ano.

Encontro de titãs.

Avatar

O Avatar é a dor de cabeça mais irritante e foleira que já tive na vida. É que nem bebi, e isso é muito triste. Por que raio é que a tecnologia não pode servir o bom gosto? Há alguma regra que a proíba de servir o bom gosto? É feio, é previsível, tem para aí uma hora e meia a mais, não impressiona, aborrece e irrita. Não quero viver num mundo em que isto é o futuro. O trailer adivinha um filme tipo G.I. Joe: Rise of the Cobra e devo dizer que me diverti mais no G.I. Joe. Como raio é que tipos que eu admiro como o Roger Ebert ou o Gabe do Videogum caem nesta merda? Estou muito desiludido com a vida. James Cameron, corta o cabelo e ganha bom gosto, por amor de Deus. Gastaste 12 anos e 300 milhões de dólares nisto? Shame on you.

Eu e o mestre: Where the Buffalo Roam (Art Linson, 1980)

It never got weird enough for me. – Hunter S. Thompson

“Deus a fazer de Deus”, é assim que o outro descreve este filme. Bem, mais ou menos. Todos desejamos, de uma maneira ou de outra, ser incríveis no que fazemos. E, especialmente, poder ser incríveis no que fazemos enquanto tomamos uma quantidade absurda de álcool e drogas. Era isso que o Hunter S. Thompson fazia. Espero, para o próprio bem dele (mental e físico), que não seja isso que o Bill Murray faz. É que o Hunter S. Thompson acabou por suicidar-se. Não sei o que faria se o Bill Murray se suicidasse. O mundo seria bastante mais triste. O mestre devia morrer uma morte agradável, bonita, poética. Um pouco como viveu.

Mas adiante. Neste filme, o mestre faz de Hunter S. Thompson. E é, diga-se de passagem, um Hunter S. Thompson vastamente superior ao que o Johnny Depp interpretou no Fear and Loathing in Las Vegas – e juntar Murray e Gilliam um dia, não? Este filme, contudo, não é melhor que esse. É estranho, bizarro, não segue grandes convenções de princípio, meio e fim – como seria de esperar num filme sobre/baseado no Hunter S. Thompson, e acaba por tornar-se aborrecido e difícil de ver algumas vezes.

O foco é a relação entre o Hunter S. Thompson e Lazlo (Peter Boyle, e que Deus dê paz à sua alma, bem como à do grandessíssimo Bruno Kirby), o advogado que depois se transforma num tipo completamente passado dos cornos. Não que o Thompson não fosse um tipo completamente passado dos cornos, mas geralmente – e é esta a ideia que o filme dá – não fazia assim muito mal às pessoas de propósito. Em vez de uma estrutura normal, começamos com o Thompson, presumivelmente no presente (1980), a acabar de escrever uma história sobre o Lazlo. Dá tiros em máquinas e atiça o seu cão a um tipo com uma máscara de Richard Nixon. Depois passamos para o passado. Em três instâncias diferentes: 1969, a sair de um manicómio e a participar, como espectador, num julgamento; 1972, a fugir da cobertura da Superbowl para ver o Lazlo a vender armas a um grupo revolucionário; e, por fim, atrás da campanha de Richard Nixon também em 1972.

A relação não é lá muito desenvolvida, e só vemos duas pessoas loucas a interagir. Mais nada. Não há arco narrativo, não há desenvolvimento de personagens, há só um tipo que tem uma sorte bestial em ter um talento imenso para escrever mesmo sendo extremamente irresponsável. Basicamente todos gostaríamos de ser assim, mas não podemos.

Vale por certas situações, apesar de ser desconfortável ver o Murray – numa óptima interpretação, diga-se de passagem – a encarnar o Thompson, com a voz e a postura e tudo. Não que as camisas havaianas, os calções e os Chuck Taylor sempre branquinhos não valham a pena. Por falar nisso, havia certamente product placement da Converse: até uma t-shirt ele usa algures.

Há, obviamente, momentos indispensáveis. Num deles, Thompson está a dar uma palestra numa universidade. Uma tipa pergunta-lhe se acha que as drogas e o álcool fariam dela uma melhor escritora. Ele pensa um bocado, acende um charro e responde: “In my case, you know, I hate to advocate drugs or liquor, violence, insanity to anyone. But in my case it’s worked.” Noutro, está completamente drogado a pilotar um avião e a cantar, com o cockpit inteiro, “Lucy in the Sky with Diamonds”, algo que me põe com um sorriso de orelha a orelha e me faz adorar a vida. Esses momentos não se compram e não existem em mais lado nenhum, só aqui.

Todos queremos ser irresponsáveis e bem sucedidos como o Thompson. Que não haja consequências para as nossas acções, poder fumar com cigarrilha, estar sempre drogados, usar óculos de sol, camisas havaianas, calções, Chuck Taylors branquinhos, chapéus, trocar obrigações jornalísticas por ir para não-sei-onde com tipos que não vemos há anos, beber a toda a hora, etc. Mas eu não fumo. Não sou grande fã de drogas. E até gosto de alguma responsabilidade. E, mais importante, se me dessem a escolher, preferia ser o Murray. Sempre, sempre, sempre o Murray.

Pinta, pinta, pinta. Todos queremos ser assim quando formos grandes. Mas mais como o Murray do que como o Thompson.

Eu e o mestre: Larger Than Life (Howard Franklin, 1996)

You know, they say an elephant never forgets. But what they don’t tell you is that you never forget an elephant. – Jack Corcoran

Não há volta a dar-lhe: este filme é mau. Quando o apanhei na televisão, era eu mais novo, achei que era uma boa ideia. É o Bill Murray à volta pela América com um elefante a acompanhá-lo. Ideia óptima para um puto de 11/12 anos. Mas depois as pessoas crescem e apercebem-se de que isso raramente dá algo decente, mesmo que seja com o Bill Murray.

O objectivo disto tudo, contudo, é testar o mestre em filmes menos aceitáveis. Será que a mera presença dele torna sempre algo tolerável? Ainda não é desta que se comprova. É que, apesar de mau, Larger than Life não é daqueles filmes tão terríveis que se tornam ofensivos. Não me faz pensar na decadência da humanidade ou da juventude e ter medo do futuro. Não, é-me totalmente indiferente. E mantém sólida a minha convicção de que um Bill Murray medíocre é melhor que nada.

Aqui ele é Jack Corcoran, um guru de auto-ajuda falhado. O início é bom: ele conquista um público qualquer de vendedores de algo sem interesse ao pô-los a fazer uma pirâmide humana. É o charme do Murray a funcionar. Derrete qualquer um. Estabelecida a personagem, procede-se ao conflito. Parece que, ao contrário do que a mãe lhe dissera toda a vida, o seu pai só agora é que morreu. O que é uma desilusão para alguém cujas palestras se baseiam no facto de que o pai dele morreu ao salvar uma criança que se ia afogar. Isto antes de ele nascer. Mas um telegrama muda isso tudo: o pai só morreu agora e deixou-lhe uma “grande” herança. Percebem? Um elefante, uma “grande” herança. Não é à toa que o filme se chama Uma Herança de Peso em português. Só piadas sobre o facto de um elefante ser um animal grande! Muito inteligente. É uma comédia tresloucada, compreendem? Tresloucada, mas depois no fim, como seria de esperar, ensina-nos imenso sobre a vida. Lá vai ele a uma cidadezeca qualquer onde lhe dizem que há 35 mil dólares envolvidos e é só assinar um documento. É intrujado: ele tem de pagar 35 mil dólares e ainda ficar com um elefante.

Passado isso, ele parte à volta da América, dividido entre duas grandes hipóteses. Uma é a personagem da Janeane Garofalo, que levará o elefante para a selva do Sri Lanka onde este viverá em paz. Outra é a da Linda Fiorentino, que transformará o elefante numa estrela. Pelo meio, há o Matthew McConaughey em modo ainda mais irritante que o normal, num overacting que acentua imenso o único sotaque dele e não nos faz perceber patavina do que diz.

Pontos só há para o facto de o mestre passar o filme quase todo de camisa cor-de-rosa e colete cinzento. Só muda quando usa um fato especial que era do John Wayne, o que até tem pinta. E para – preciso de pedir desculpa por isto, mas não consigo resistir – o McConaughey não mostrar o peito uma única vez durante o filme. Se calhar ainda não tinha ido muitas vezes ao ginásio na altura. Há que dizer que não o odeio assim tanto quanto parece: acho-o perfeitamente tolerável e competente no Dazed and Confused, por exemplo.

É tudo banalíssimo e a seguir as regras à risca: o mestre não gosta do elefante, depois adora o elefante, quer ganhar dinheiro com ele, mas depois percebe que o elefante deve ser livre. A moral é essa: os animais não devem ser explorados para proveito dos humanos. Ou seja, não devem fazer filmes com o Bill Murray. Não devem perturbar a arte do mestre. Que aqui está em piloto automático mais ou menos durante a primeira parte do filme, a fazer o melhor com o pouquíssimo que lhe dão, entre piadas batidíssimas e gags idiotas. A meia hora do fim, lá temos um vislumbre do Murray maior do que a vida, cheio de força e vigor, a pedir boleia. O fim vê-se a milhas, como tudo.

Só há duas razões para se gostar deste filme. Uma é ter 10, 11 ou 12 anos. Crescer assim é simpático. Outra é estar-se ressacado e não haver mesmo mais nada decente a dar na televisão. Imaginem que isto está a passar na SIC – o que hoje em dia muito dificilmente aconteceria – e a alternativa é uma série manhosa de vampiros na RTP1 e um filme apenas com o Matthew McConaughey na TVI. E com a Kate Hudson, vá. Isto num mundo em que não existem DVDs, Blu-Rays, Div-Xs e afins, e não há Coca-Colas suficientes para curar a ressaca. Aí é o melhor filme do mundo: não ofende e tem o mestre. O que é mais do que se pode dizer de alguns filmes supostamente bons.

Será o teu coração suficientemente grande para aceitar esta louca viagem? O mestre e Vera, o elefante-fêmea.

(Sim, “um Murray por semana” era só mais ou menos uma estimativa, podem contar mais ou menos com um Murray por semana, mas não há nada que me impeça de tirar um Murray da cartola quando me apetecer)