I feel good, I feel great, I feel wonderful… I feel good, I feel great, I feel wonderful… I feel good, I feel great, I feel wonderful… – Bob Wiley
O Frank Oz merece um lugar no céu. Não que eu acredite no céu – no mínimo dos mínimos tenho sérias dúvidas de que exista –, só acho que ele o merece. E nem é por ter realizado um ou outro filme decente. É que ele puxava cordelinhos de alguns dos Marretas, fazia as vozes deles, e ainda por cima foi a voz do Yoda. O que mais se pode pedir de alguém? Realização de filmes com relativa piada? O Frank Oz também tem isso no curriculum, e será recordado por gerações e gerações de pessoas que gostem de rir ou que gostem apenas de incredibilidade em geral.
Em certos filmes, há várias razões que me fazem perdoar uma piada banal, preguiçosa ou que repita outras piadas que estou farto de ouvir. Pode trazer um bocadinho de novidade, de vida, pode servir especialmente bem a história, pode vir associada a uma personagem que diria mesmo esse tipo de piada, pode adicionar à doçura do filme e fazer-me guardar um espaço ainda maior no coração para ele…ou isso ou sou eu a tentar justificar o injustificável. Há um filme do ano 2000 chamado Saving Grace que eu vi no Quarteto com amigos e gostei. Já tinha ouvido aquelas piadas antes, mas não consegui resistir à história da viúva de meia idade que se vê obrigada a começar a vender droga para pagar as dívidas do falecido marido. Não fazia ideia de quem era o Craig Ferguson, que escreveu o filme, na altura, e achei piada àquele jardineiro. Hoje em dia, claro, sei que é provavelmente o apresentador de talk shows mais inovador que existe por aí e que tem mesmo muita piada. Talvez isso desculpe as piadas serem preguiçosas, talvez não. Sei que o Death at a Funeral, realizado pelo Frank Oz, tem muitas das mesmas piadas que esse filme. Porém, não me fez rir uma única vez. Se calhar em sete anos transformei-me num snob, ou se calhar as piadas não vinham associadas a uma história ou a personagens que me dissessem o que quer que fosse (a não ser, claro, ao Peter Dinklage, um deleite em qualquer filme em que apareça).
Meio Portugal – e especialmente o Portugal intelectual – parece estar a adorar o Whatever Works, o filme do Woody Allen com o Larry David. As melhores piadas desse filme estão no trailer, há imensas piadas recicladas e preguiçosas e há um claro subaproveitamento de toda a gente envolvida. É triste, porque a filosofia subjacente é louvável e interessante. Com trabalho, chegar-se-ia a um clássico. Sem trabalho, só não é o pior filme do Woody Allen porque infelizmente ainda não esqueci o Small Time Crooks.
Por razões diferentes, o Death at a Funeral e o Whatever Works apelam ao mesmo tipo de público: gente que gosta de rir de dois em dois anos, no máximo, e parece que nunca ouviu aquelas piadas antes. No Death at a Funeral as piadas não estão associadas a personalidades fortes, marcadas, que elevem o filme da mediocridade. No Whatever Works as piadas são fracas, a história é fraca, e, por muito boas que sejam as pessoas envolvidas, não são o Bill Murray, por isso não há mesmo nada a fazer. O Frank Oz é muito assim, e a maior parte dos filmes dele vale o que vale por ser com quem é.
O que me leva a este What About Bob?. Não há nada aqui que não tenha sido feito melhor por outras pessoas. Mas o Bill Murray e o Richard Dreyfus funcionam tão bem juntos que se desculpa. Não funcionaria com outros quaisquer, disso não há dúvidas. O Dreyfus é um psiquiatra de sucesso, o Murray é o paciente que não o larga e o leva à loucura. A personagem do mestre é um bocado a mesma que ele faz no The Man Who Knew Too Little, ainda aí pela vida totalmente desastrado sem querer fazer mal a ninguém, sem saber muito bem o que se passa e a fazer-nos rir. Podia ser muito pior.
É banal, há mil histórias iguais. Uma que me vem à cabeça é a do Planes, Trains and Automobiles, um filme do John Hughes com o Steve Martin e o John Candy feito quatro anos antes deste do Frank Oz. Nesse filme, o tipo normal que só quer viver a vida tranquilamente e o chato que, qual lapa, não descola, ficam amigos. Talvez isso mostre o quão grande era o coração do John Hughes. Por sua vez, o What About Bob? acaba com tentativas de homicídio e um doente mental a levar um psiquiatra à loucura. Ou seja, o Frank Oz não tem coração, mas dá uma nova vida à mesma fórmula de sempre.
Estava a brincar. Tudo isto tem a ver com o facto de o Frank Oz ser um homem do humor físico que não liga assim tanto às piadas com palavras que sabe retirar o melhor dos actores (Steve Martin, Eddie Murphy, Bill Murray, etc.) no que toca a isso. A sério: duvido que, em termos físicos, haja melhores interpretações cómicas desta gente em filmes que não sejam do Frank Oz. Deve ter algo a ver com a relação dele com as marionetas ou o caraças.
O que não quer dizer que esta seja uma grande comédia. Não é. É porreiro, vê-se, o Frank Oz tem melhor e pior. Mas vale sobretudo por dois momentos impagáveis que estão lá em cima no panteão dos melhores momentos de sempre (que eu, aliás, acabei de inventar). O segredo, como sempre, está na cara do Bill Murray. Nas expressões que faz enquanto toma banho ao ar livre, com a t-shirt dele a dizer “DON’T HASSLE ME, I’M A LOCAL” e na maneira como canta, depois, com a família toda do Richard Dreyfus, o “Singing in the Rain” enquanto estão todos a lavar a loiça. São daqueles momentos em que não interessa quanta piada têm, são apenas coisas que fazem a vida valer a pena. Apenas. Como se isso fosse pouco.

Consta que se deram mal durante a rodagem. Ainda bem.




